quarta-feira, 27 de março de 2013

Artigo: Dragão de Água e a foto-ilustração



Hoje em dia os programas de correção de imagens estão se tornando cada vez mais auto-suficientes. Dar brilho ou corrigir tons errados já são funções simples e qualquer um pode se tornar o mestre no retoque sem sequer ter feito uma aula de arte. As empresas de softwares cada vez mais tentam vender programas de edição de imagens para o público comum, que é onde está o dinheiro: na quantidade.

Arrumar a foto da balada que vai ser colocada na rede social agora é facil. Arrumar a foto do avô, hoje, qualquer um faz e deixou de ser um serviço que antes era feito em pequenas produtoras.

E o mercado de imagens para publicidade reagiu a isso de forma positiva: Está cada vez mais comum falarmos de agências especializadas em imagens, com trabalhos de alta qualidade, e criações artísticas que realmente colaboram para o entendimento de campanhas.

E é aí que quando alguém vê uma imagem dessas logo vem me perguntar "Poxa, Tabajara, mas tem que saber desenhar para fazer isso ou basta conhecer bem  e fazer um bom curso de Photoshop?"


Ok, sem eufemismos, vamos deixar de lado o “isso é pra qualquer um”. Sim, tem que saber desenhar. Apesar de serem "simples" fusões de imagens, o artista vai ter que arrumar a luz de cada imagem, se preocupar com a anatomia na hora de fusões que envolvam modelos e se preocupar com a composição, pois a imagem publicitária tem um objetivo, e se ela não comunicar bem, tudo vai por água abaixo. 

Antes que alguém fale “Mas fulano é bom e nunca desenhou na vida”, vamos entender que pra mim desenhar não é pegar o lápis e rabiscar no papel. NÃO MESMO!

Conceitos de perspectiva, luz e sombra, tridimensionalidade, criação por blocos; podem ser alcançados por alguém que apenas ficou “brincando com o Photoshop” - desde que essa pessoa leu sobre tais conceitos, aprendeu com um professor e estudou e ralou para aplicá-los. Desenho sempre foi uma perícia  80% mental e 30% manual.

Então não pense que desenhar é um cume utópico. Alguns tem mais facilidade que outros, mas nada melhor que ralar para aprender.

Então deixemos de bla bla bla e vamos a um passo-a-passo de como fiz a imagem do dragão de água. Aqui não vou mostrar técnicas de desenho nem de photoshop, mas vou mostrar como me organizei e me preparei, para que quem já conheça um pouco de desenho e tratamento de imagens possa ter nesse artigo um novo horizonte.


Imagem e a área de pintura




A imagem original escolhida para essa ilustração foi a foto da virgem olhando para o mar, produzida por Elizabeth Mire.

Eu já imaginava que queria fazer um desenho de um dragão de água surgindo de um mar. Apenas procurei no banco de imagens uma foto que comportasse essa ideia. Felizmente (e MUITO felizmente) achei essa fotografia no www.sxc.hu . Como era uma imagem com direitos autorais, e eu ia fazer a ilustração para portfólio, contei minha ideia para Elizabeth, dona da foto, e ela adorou, me oferecendo sua foto em alta qualidade.

O primeiro passo da confecção foi recortar a modelo e gerar um fundo padrão, com bastante área de trabalho para eu poder rascunhar algumas formas de dragão à esquerda. Nesse ponto não me preocupei com a repetição exagerada da água, apenas me preocupei para não perder resolução.


Rascunhando e pintando

Criei um Layer e fiz vários rascunhos com poses diferentes do dragão.  Nesse caso não me preocupei com perspectiva, apenas rabisquei  várias idéias. 

Depois de escolher a que mais gostei comecei a acertar a  perspectiva. Mas aqui tive meu primeiro problema: A imagem não tinha nada que me desse um ponto de fuga correto. 

Então -acreditando- que as ondas do fundo da imagem eram paralelas e equidistantes usei-as como base para quadricular uma perspectiva. Eu posso estar errado quanto a isso, mas visualmente "bateu", então comecei a pintar com detalhes o dragão



Depois de desenhar e pintar o dragão na perspectiva e organizar a cena eu tive alguns problemas de percepção.

Primeiro vamos entender que a foto original não é uma montagem. A modelo estava sobre um ponto alto e a fotografia foi tirada para que mostrasse o contraste dela com o mar. 

Mas quando finalizei o dragão na água muitas pessoas a quem mostrei sentiram falta de um chão para a menina. Disseram que a modelo parecia estar “flutuando”, o que de fato nunca esteve. Mas foram tantas pessoas comentando que criei o topo da colina para que essa percepção não atrapalhasse a cena.

Outra coisa é que o sol apenas colore o mar quando a luz está diretamente apontada para ele (Como em imagens do sol tocando na água no horizonte).  E essa era outra encanação das pessoas "ela está tomando luz do sol poente e a água está verde. Você pintou errado" as pessoas me diziam.

Mas se olharmos a imagem original e entendermos o conceito, não está errado. Aqui entra a velha questão "se parece errado aos olhos do leigo (no contexto da pintura) foi criado errado. Então é melhor corrigir antes que isso tiro o foco da pessoa.

De pintura para foto.

Eu tinha na minha cabeça a ideia de que iria desenhar o dragão e depois ia pagar várias imagens de água e splashs e fundi-las com algum efeito ou filtro. O problema é que isso era algo que eu poderia tentar, mas nunca tinha feito ou soubesse de alguém que tinha conseguido tal proeza.

Então eu teria que testar todas as formas de fusão percebendo como as imagens recortadas iriam se comportar sobre a pintura. Várias vezes eu fundi imagens e apliquei efeitos, mas cada tipo de superfície se torna um novo desafio, não importando quantas vezes o ilustrador já tenha realizado esse processo. 

Eu reservei um dia inteiro só para testes. Começando do zero para cada tentativa, caminhos diferentes de fusão de imagens foram tomados usando de opacidade, filtros ou Bend modes. O melhor resultado e cujo processo está na imagem eu descrevo abaixo: 





1) A pintura do modelo, seguindo os conceitos de luz e sombra da pintura tradicional

2) Ao abrir uma torneira ou derramar grandes quantidades de água é fácil perceber que o centro do objeto é o mais transparente. Apaguei o centro da pintura e clareei o fundo, desenhando novamente a luz por cima do resultado. Apliquei um leve BLUR na imagem imediatamente atras da água.

3, 4)  Aqui começaram as colagens. Tirei algumas fotografias de água de torneira com o fundo preto (uma cartolina simples atrás da água e foto sem flash). Os brilhos ondulares mais interessantes foram separados por padrões, e esses foram recortados e envelopados a pintura com a ferramenta Warp. Fiz dois layers diferentes. Um com imagens de textura da água mais focadas no centro. o segundo com texturas mais focadas nos cantos.

5) Esse resultado eu aplicai com o BlendMod OVERLAY. O Overlay escurece e clareia a imagem de baixo de acordo com a cor de cima. Assim o centro dicou escuro (por causa do preto) e a borda ficou clara. Antes é bom deixar claro que o efeito ficou bom porque a luz e sombra da pintura embaixo estava certa. Apenas aplicar essa capada como overlay sobre a imagem de fundo não gera nenhum resultado.

6) Somei alguns “splashs” às bordas da estrutura, também com colagens fotográficas. Aqui a dica é simples: imagens de água e fogo no fundo preto não precisam ser recortadas, basta duplicá-las dentro da máscara.  É um ótimo começo! O espirro das gotas d’água em pontos chaves ampliou a expressão do movimento.

7) Deixei em cima os layers com “splashs” e escureci tudo abaixo com layer de controle. Isso ressaltou as gotas, ao mesmo tempo em que integrei as cores da cena. 

8) Apenas como um toque especial encaixei uns peixinhos dentro do dragão e acertei o contraste do corpo usando máscaras e layers de controle. Os peixinhos vieram no vórtice da água, ou são eles peixes super inteligentes que criaram um veículo aquático em forma de dragão? humm.....


O Susto da Menina

A menina foi a última coisa que me preocupei na criação dos elementos da ilustração.  A foto em si ajudou muito na configuração geral da cena. Mas depois que coloquei o dragão na frente da menina pensei "essa menina está muito calma pra quem está vendo um monstro"

O que eu fiz, então, foi dar uma pose de quem acabou de levar um pequeno susto, arqueando o ombro para trás. Fiz isso da seguinte forma: primeiro retirei a cabeça e deixei-a em outro layer. Depois inclinei o corpo. E então eu fiz a fusão do pescoço, me preocupando com a anatomia. 



Bom, a segunda coisa que pensei foi "essa menina é muito magrinha". Veja bem, isso não é uma postura machista "colocar peitos grandes em uma mulher de ilustração".  Mas essa menina não estava nada sensual e toda imagem de sacrifício da virgem tem que ter um apelo Pin-UP. Tanto que uma das coisas que fiz, alem de aumentar os peitos com uma pintura realista sobre a foto, foi colocar mais roupa nela. A sensualidade de uma manga caindo de um lado só é sentida se o outro lado estiver no local. 


Detalhes que fazem a diferença

Depois de toda a fusão feita é preciso arrumar a luz da cena com pintura de Luz e Sombra.  Isso deve ser feito porque mesmo que a pintura inicial estivesse com a luz correta as imagens usadas na colagem estavam cada uma com uma iluminação diferente. 

Além disso, girar a imagem e os inúmeros efeitos de Warp que dei para a foto ficar exatamente encima do desenho deixaram a iluminação bem caótica.

Veja no último passo da cabeça do dragão como fazer a pós-iluminação ajudou a variar os planos, dando clareza visual a cena. 

Quando vou pintar luz e sombra em cima de uma imagem crio um layer no modo SoftLight. Assim quando pintar de branco a imagem abaixo vai clarear. E se pintar de preto ela vai escurecer.

E, claro, para pintar usei a teoria do vítrios (que já fiz um vídeo explicando a teoria)

Composição


Outra chave na criação de uma imagem é a sua Gestalt (ou Composição, como era dito antigamente). A forma como os objetos estão dispostos na cena podem ampliar sua comunicação ou estragar de vez o seu projeto. 

Nessa imagem usei como guia a divisão áurea (em vermelho) para ajustar o foco principal da cena na cabeça do dragão, que está entre os dois pontos focais direitos; 

No quadro abaixo, formado pela divisão principal, há uma repetição dessa proporção (em laranja), garantindo ritmo à visão do monstro. A virgem, dentro da menor área, é oprimida no final da leitura da imagem; 

Ainda dentro da área da virgem a lei do retângulo dinâmico (em amarelo) guia o fechamento visual do grupo modelo/chão/fundo. A regra mais simples da Gestalt é que grupos com silhuetas geométricas simples são mais facilmente identificados e absorvidos.

Embora a composição da imagem esteja sendo mostrada no final da matéria, vale lembrar que ela deve ser planejada logo após o primeiro rascunho, acertando melhor visualmente suas idéias. 




Finalizando

Gosto da frase: “Desenho é coisa séria!”. Imagens como essa não podem ser concluídas da noite para o dia. É necessário planejamento e tempo para pesquisa. Uma semana é o tempo mínimo de execução.

Para aqueles que gostariam de começar a criar esse tipo de ilustração, acho que a melhor dica é mesmo a de começar do zero mais de uma vez. Reserve um bom tempo em seu cronograma apenas para isso e bons rabiscos!

E se vc já tem acesso ao Diretório Aberto (o Hd online do ILUSTRADICAS) você pode ir na pasta "artigos" que lá terá o PSD original dessa imagem, com todos os layers e efeitos para você estudar!